segunda-feira, 23 de junho de 2014

O homem hormônio

Microgotas desta coisa, pior que cocaína,
Caem na corrente sanguínea.
O que acontece, então ?

Destrambelhado e louco,
O homem se afogou totalmente,
Neste hormônio autoritário.

Escorregadios estão, agora, seus pés,
Parece estar patinando em manteiga,
Já não pode evitar as covas,
No fundo de que lhe aguardam,
Escorpiões, cobras e a aranha venenosa.

E ele embriagado, pela rua tateia,
Em tonteira hormonal cambaleia.

Numa esquina escura,
Nesta noite em particular,
Os hormônios o alertam:
"Ali vai a fêmea distraída,
Indefesa, absorta e solitária".

E ele, lunático macho,
Dela logo se aproxima,
Chega e lhe expõe os dentes,
O desejo nos olhos,
Mãos trêmulas,
Pronto e disposto.

Seus lábios abrem e fecham,
Derramando palavras melífluas,
Convocando a vítima para o matadouro.

A pobre, solitária e indefesa,
Que só tem sua vida comum,
De dia a dia, noite a noite,
Na alcova recolhida,
Após a labuta escaldante,
De cinco dias torturantes,
Cede ao homem sorridente.

Talvez finalmente,
Em sua vida de vai e vem,
Ela achou o companheiro prometido,
O maestro da sua vida,
O condutor do Corcel branco,
Que a levaria até seu último dia,
Junto na mesma cela.

E para um quarto juntos vão,
Em ato, em volúpia,
Em ressonantes inspirações,
Em volumosas expirações,
Em altissonantes sons,
Sob vigilância da Lua,
Que não sorri de preocupada,
Com sua filha num leito,
Com aquela fera cabeluda.

E de manhã, o hormônio deixa o quarto,
Porta afora, de pouco se esvaiu.
O homem já se veste,
Perguntando para si:
"O que faço eu aqui ? "

A fêmea enamorada,
De troca física que pensa,
Ser amor de Afrodite,
Confessa verbalmente e feliz,
Seu amor ao embusteiro.

Mas ele, já de saída,
Satisfeito, desejo realizado,
Diz a ela soturno:
"Vou pagar o quarto,
Pode ir sossegada,
Talvez a gente se encontre,
Numa outra madrugada" .

Bernardo Meyer (Jun/2014)



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